Alemanha, 04 de Abril de 2008
'Ajuda à Igreja que Sofre' diante dos novos sofrimentos da Igreja

Introduzir o Evangelho no coração de sua vida profissional é um dos maiores desafios do cristão de hoje, afirma o novo secretário-geral de Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), Pierre-Marie Morel.

O novo secretário assumiu suas funções na sede internacional da organização, perto de Frankfurt, na Alemanha, em janeiro passado. Anteriormente havia desempenhado altas funções em importantes companhias internacionais. Agora acaba de receber a oportunidade de pôr sua experiência ao serviço da Igreja.

Regozijando-se por poder realizar a unidade entre sua fé e sua vida profissional, Pierre-Marie Morel não perde de vista o peso de sua nova tarefa e dedicou um tempo para escutar: "Escutar para definir prioridades de ação; escutar para compreender as apostas de nosso tempo e adaptar AIS, na fidelidade criadora, ao Pe. Werenfried, fundador da organização". Acompanhe a entrevista:

–Você estudou Ciências Econômicas e desempenhou altas funções em importantes companhias internacionais. O que sente agora neste cargo?
M. Morel: Deve-se continuar sendo realista e moderado. Aos 60 anos, estou no fim de minha carreira e é completamente normal ter ocupado cargos diferentes e variados. O que é interessante é ver como o Senhor nos prepara.
As diferentes atividades eclesiais e pastorais que exercemos na Igreja - minha mulher, Anne, e eu - e especialmente desde mais de 25 anos no seio da comunidade Emmanuel, nos fizeram crescer em um espírito de serviço e de abertura. Encontrar-me neste cargo me enche de alegria porque me leva a realizar a unidade entre minha fé e minha vida profissional. O peso da tarefa, contudo, convida-me a encontrar finalmente o Senhor na oração e na adoração do Santo Sacramento.
Quanto ao cargo de secretário-geral, é um cargo que deve reunir competências variadas como as novas tecnologias, as finanças, a gestão de pessoas. A particularidade de um cargo desse tipo é que requer também um grande amor à Igreja e um abandono ao Espírito Santo. Muito além de nossas competências profissionais, que são indispensáveis, nosso principal trabalho é amar, e isso nem é sempre fácil!

–Sua experiência internacional no campo da gestão de empresas multinacionais pode constituir um «extra» ou outra maneira de conceber a ajuda em favor destas Igrejas perseguidas, vítimas de discriminações ou pobres demais para cumprir sua missão pastoral?
M. Morel: Minhas funções na IBM e EADS foram bastante variadas, e meus 12 anos de expatriação me ajudaram a aprender os fenômenos da globalização nas diferentes culturas. AIS é uma obra eclesial, portanto tem uma vocação universal. Se a princípio estava sobretudo orientada para a Igreja perseguida após a Cortina de Ferro, hoje, a realidade é muito diferente, e as demandas de ajuda vêm de bispos de todos os continentes.
O discernimento dos projetos pastorais passa pelo filtro das dioceses locais, que preparam expedientes de pedido de ajuda. A seguir, uma equipe de especialistas realiza um novo discernimento em função das prioridades da Santa Sé e também das possibilidades financeiras da obra. O secretário-geral e o presidente aprovam a distribuição dos orçamentos concedidos às diferentes partes do mundo, assim como os projetos mais importantes.
Na solidariedade referente aos projetos pastorais há um duplo movimento. Os informes narrativos que acompanham o fechamento de um projeto, com seus testemunhos, revitalizam nossas próprias comunidades cristãs, com freqüência mornas. Assim, a generosidade e a oração dos benfeitores fica enriquecida pelo dom da alegria e do testemunho. Veja, diante de todo sofrimento da Igreja, só pude dar ao Senhor a graça da esperança gozosa e da humildade.

–A ajuda de AIS responde às necessidades das Igrejas locais que mais sofrem ou as mais desprovidas em 130 países do mundo. Como se apresenta a tendência das necessidades no mundo? Aumentam as demandas, inclusive na Igreja, de países nos quais no passado tudo ia bem, por assim dizer? E em sua opinião, por que se dá esta situação?
M. Morel: Para começar, a cortina de ferro caiu e a situação do mundo e da Igreja continua evoluindo de maneira contrastada.
Lá onde a Igreja é perseguida, seu sofrimento é grande, mas um dos frutos deste sofrimento é que freqüentemente ganha em força, em tamanho e em santidade.
Paradoxalmente, onde a secularização ocidental faz aparentemente todo o possível, a Igreja tende a enfraquecer-se e o sofrimento muda de natureza. É porque o nível de vida e o culto ao dinheiro afastam dos valores fundamentais? É porque a revolução cultural ocidental, como diz Marquerite Peeters, é um dos mecanismos de engenharia social mais eficazes da globalização da apostasia?
A ideologia de gênero não acabou provavelmente de fazer estragos em nosso mundo ocidental, mas pode também tocar países até agora preservados na África ou na América Latina. Então, devemos formar-nos para não cair nas armadilhas da desconstrução antropológica programada por esta ideologia.
Uma avaliação recente fala de bilhões de crianças mortas antes de nascer no mundo desde que as leis o autorizaram. A família é ridicularizada, a maternidade e a paternidade responsável são desacreditadas, a sociedade em seu conjunto se tornou frágil pela libertação dos costumes, e as leis que asseguram agora a promoção do que eram, não faz muito tempo, em nosso código civil, incitações à corrupção.
Então sim, as necessidades da Igreja vão evoluir e, além das demandas urgentes que nos chegam do mundo inteiro, é de esperar que aumentem as demandas do mundo ocidental para uma nova evangelização.

-De que tipo são, atualmente, as demandas mais freqüentes?
-M. Morel: Posso lhe dar uma indicação da distribuição da nossa ajuda em função da natureza dos projetos em 2007, que será publicada dentro de pouco em nosso informe anual: ajuda à construção, 28,1 %; ajuda de urgência, 1,3%; ajuda à subsistência, 3,3 %; ofertas de missas, 14,2%; formação religiosa, 14,3%; apostolado da mídia, 3%; apostolado bíblico, 3,9%; ajudas pastorais, 18,4 %; catequese, 8,6%; ajuda de transporte, 4,9 %.
Mas não podemos considerar somente a ajuda financeira. Não existem pequenos projetos. Todos têm sua importância, seja qual for seu tamanho.Trata-se, em princípio, de estar à escuta das necessidades dos nossos irmãos e irmãs na fé, com um grande respeito por aqueles que sabem, melhor que nós, onde estão as prioridades.
Três exemplos de natureza muito diferente: um projeto para proporcionar 12 bicicletas na África, para permitir aos catequistas que cheguem às comunidades no campo pode ser eminentemente estratégico; um projeto para participar da construção do grande seminário de Lviv, na Ucrânia, pode ter conseqüências gigantes na pastoral da região; um projeto que poderá contribuir para a reconciliação na China entre os católicos oficiais e não-oficiais responderá à reflexão do Papa Bento XVI no dia 8 de janeiro de 2007 em um encontro com o corpo diplomático. Ele dizia naquela ocasião: «Meu pensamento se dirige às comunidades cristãs. Na maior parte da Ásia, trata-se freqüentemente de comunidades pequenas, mas vivas, que desejam legitimamente poder viver e atuar em um clima de liberdade religiosa. É ao mesmo tempo um direito primordial e uma condição que lhes permitirá contribuir para o progresso material e espiritual da sociedade, e ser elementos de coesão e concórdia». Como você sabe, o Santo Padre publicou, a seguir, uma carta a todos os católicos na China, convidando-os à unidade. Capta-se melhor assim a aposta de tais projetos.

-O dinheiro de que a obra dispõe procede exclusivamente dos benfeitores. Falemos da quantidade de doações que recebem. Como você a vê? Constante? E suficiente com relação às petições?
-M. Morel: A curva de doações é um milagre permanente, pois acompanhou, nos últimos anos, a curva das demandas de ajuda. A evolução das doações não é totalmente linear, mas a tendência é subir. No entanto, as doações não permitem sempre cobrir o total das necessidades. Em 2007, pudemos responder a um pouco mais de 5 mil projetos, de mais de 7 mil demandas. As doações em 1994 foram de 58 milhões de euros; em 2000, 66 milhões; em 2005, 74 milhões; e em 2007, 79 milhões.
Com relação ao futuro, você sabe, a evolução da curva de doações está nas mãos do Senhor. No entanto, temos confiança com relação à generosidade dos nossos benfeitores e dos nossos doadores jovens, que se unem cada vez mais a este impulso de solidariedade.
Continuaremos também adaptando-nos à evolução do mundo, fazendo evoluir a presença dos nossos escritórios nacionais e aperfeiçoando a nossa comunicação, para dar a conhecer melhor esta obra indispensável na manutenção da missão pastoral da Igreja no mundo.

-O que se propõe, neste âmbito? Você já tem alguma idéia de um projeto que gostaria de colocar em prática?
-M. Morel: As grandes orientações para o futuro concernem à comunicação com seguimentos da população mais jovens que a média de idade dos nossos benfeitores atuais, para a evangelização e para a perenidade da nossa obra. O segundo eixo se refere à evangelização da mídia e à evangelização através dos meios de comunicação e pelas novas tecnologias.

-Você disse, em várias declarações após sua nomeação, que vê a Igreja como um ator global. Poderia explicar isso?
-M. Morel: É uma má tradução da palavra «global» inglesa que, traduzida para o francês, quer dizer «mundial» e que, aplicada à Igreja, quer dizer «universal». A Igreja é especialista em humanidade e por isso tem uma missão universal. Quem melhor que a Igreja fala do amor? Quem melhor que a Igreja fala do perdão? Quem melhor que a Igreja fala da felicidade?
Quem melhor que a Igreja fala da verdade? Quem melhor que a Igreja nos convida a meditar na Palavra de Deus? E isso não está reservado a alguns iniciados, mas a todos os homens de boa vontade que buscam a Verdade. Em todos os continentes. Neste sentido, a Igreja tem uma vocação universal.

Ajuda à Igreja que Sofre / Zenit

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