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FATOS DA VIDA
Uma Estranha VocaçãoSou sacerdote, religioso, mas raras vezes estou em minha abadia. Já faz alguns anos que vago por países onde Deus chora ou estou à procura de pessoas que desejam me ajudar a enxugar as lágrimas de Deus. Esta é uma estranha vocação. Também seus antecedentes são singulares. Mas, ao olhar para trás, vejo na minha vida uma linha reta que tudo atravessa rumando para Deus.
Aqueles que bem me conhecem sabem quantas sombras existem em mim e o quanto tenho para lamentar. Busco fazê-lo do melhor modo possível. Mas mesmo assim, tudo teve de acontecer desse modo: tudo de bom e tudo de ruim; tudo o que Deus me deu e tomou; os colaboradores que se reuniram à minha volta e aqueles que me deixaram ou que fui obrigado a despedir; tudo o que construí e tudo que eu ou outros destruíram; tudo ao que Deus "fechou os olhos", tudo o que Ele me impôs e o que me ofereceu em abundância, numa inconcebível bondade, ou o que eu mesmo tomei precipitadamente; todas as minhas alegrias e aflições, minhas amizades, minhas preocupações, minha ira sagrada e minha ira profana, meu otimismo e minha grande confiança nas pessoas. Como também meus inimigos e traidores, minhas cruzes, meus combates e pecados – tudo teve um significado na minha vida turbulenta. Tudo me preparou para a missão que Deus havia reservado para mim; tudo estava a serviço da vocação que dele recebi e pela qual lhe quero ser eternamente grato.
Quando eu era jovem, queria estudar pintura. Mas meu pai, um professor convicto, decidiu que eu deveria seguir o magistério. Durante anos ele me deu aulas particulares a fim de me proporcionar os estudos universitários. Estudei filosofia clássica; porém me interessava muito mais pelos problemas sociais. Como conseqüência, não me tornei professor, mas redator de um jornal estudantil e co-fundador de um partido político que, por sorte, não durou muito.
Ingressei num movimento religioso que desejava realizar uma reforma dentro da Igreja e que foi perseguido como uma seita perigosa pelas autoridades eclesiásticas da época. Devo muito a este movimento, dirigido pelo sacerdote flamengo Raimund van Sante, pois me transmitiu um grande amor a Cristo. Mas este movimento também me pôs em contraste com o episcopado holandês, que no começo da década de trinta não se mostrava propriamente progressista. Assim. Logo cedo fui levado a ter uma tendência "anticlerical". Não eram poucos os meus amigos que viviam em conflito com a Igreja.
Meus dois irmãos que se preparavam para o sacerdócio duvidavam da minha ortodoxia religiosa. Fui a ovelha negra da família. Para surpresa de todos, Deus me chamou para o mosteiro em 1934, apesar de, na época, eu estar tremendamente apaixonado. O sacrifício que me foi exigido era maior do que posso descrever aqui. Se eu tivesse refletido melhor, provavelmente teria dito não. Mas não é do meu feitio ficar refletindo demais. Isto nada tem a ver com perfeição cristã, pois freqüentemente minha ousadia é maior que minhas forças. Assim, embora com as melhores intenções, depois de décadas de vida religiosa, continuei sendo uma pessoa fraca e imperfeita, que não pode apelar para as próprias qualidades, mas unicamente à misericórdia de Deus.
Decidi tornar-me capuchinho por acreditar que eu deveria dispor da minha vida a serviço dos pobres. Os capuchinhos eram, então, a única ordem pobre que eu conhecia na Holanda aburguesada daquele tempo. Mas não fui aceito por razões de saúde. Durante três meses, vivi na incerteza. Depois, deixei a Holanda e ingressei na ordem dos premonstratenses em Tongerlo, na Bélgica. Muito embora, na opinião de pessoas sábias, eu não tivesse inclinação nem para liturgia, nem para a contemplação, nem para a vida canônica regular. Mas Deus é mais sábio que as pessoas.
Vivi tão rigorosamente os primeiros tempos no mosteiro, que depois de três anos minha saúde desabou. O parecer médico indicava que eu não servia nem para as missões, nem para serviços paroquiais e nem para pregações. Isso significava na pratica, que eu deveria deixar a abadia. Por sorte, o abade não me mandou embora. Embora sabendo que eu cantava um pouco alto e desafinado, considerou-me qualificado para a oração festiva do coro – ele tinha um coração grande e paternal. Assim pude tornar-me sacerdote. Mais tarde, ele me nomeou seu secretário. Aprendi muito com o abade Stalmans. Certa vez, ele me disse: "Estou feliz por ter um Werenfried, mas também estou feliz por ter apenas um Werenfried".
Em seguida, veio a Segunda Guerra Mundial, com todo o sofrimento que ficou indelevelmente gravado na minha memória. Encontrava-me entre duas frentes de combate, porque não conseguia considerar aquela matança monstruosa senão uma batalha de pagãos por coisas deste mundo. Não queria tomar nenhum partido que não fosse a favor do amor e contra o ódio. Num país que sofria a ocupação inimiga, enfatizei que os cristãos tinham o dever de amar seus inimigos e que seria um pecado grave recusar-lhes sistematicamente os gestos normais de amor fraterno. Eu tinha amigos entre os comunistas e nas forças alemãs, entre os colaboracionistas, entre os membros da resistência, bem como entre os voluntários que lutavam contra os russos no front oriental.
Depois da guerra, muitos dos meus amigos morreram em escaramuças e foram enterrados em valas comuns ou nos cemitérios militares que cobriam toda a Europa destruída. Muitos caíram em combate com farda alemã, outros com farda dos aliados. Alguns morreram nas câmaras de gás dos campos de concentração de Hitler; outros, como cidadãos indefesos nos ataques aéreos dos ingleses e americanos. Alguns foram fuzilados como colaboracionistas. Muitos foram vítimas das represálias duras e desumanas do pós-guerra. Fundei, então, uma pequena revista, por meio da qual, mês a mês, batalhei pelo restabelecimento do amor num mundo dilacerado. Escrevi contra o ódio e a favor da reconciliação. Coloquei a misericórdia acima do direito. Mendiguei amor para um inimigo vencido. Defendi os indefesos, os prisioneiros expulsos de suas casas e propriedades, os perseguidos, os pobres e os oprimidos.
Isso foi o início daquela que seria propriamente minha missão de vida, à qual, desde então, procurei corresponder da melhor maneira possível. A essência desta missão não é recolher toucinho para os alemães banidos da sua terra, ou motorizar os "padres de mochilas"; não é erguer emissoras de rádio para a evangelização dos fiéis na América Latina, ou imprimir livros para os católicos perseguidos atrás da Cortina de Ferro; não é construir capelas no Vietnã, ou enviar donativos aos prisioneiros dos campos de trabalho na Sibéria. A essência da minha missão consiste em enxugar as lagrimas de Cristo, onde quer que ele chore. Deus naturalmente, não chora no céu, onde vive em luz inacessível e bem-aventurança eterna. Deus chora na Terra. Suas lágrimas correm incessantes sobre a divina face de Jesus, um com o seu Pai celeste, e mesmo assim continua aqui na Terra vivendo e sofrendo, passando fome e sendo perseguido nos mais pequeninos dos seus irmãos. As lágrimas dos pobres, com os quais ele se identifica, são as suas. E as lágrimas de Jesus são as lágrimas de Deus.
É assim que Deus chora em todas as pessoas oprimidas e sofridas de nosso tempo. Não podemos amá-lo sem enxugar as lágrimas delas. Por isso, comecei a minha caminhada pelo deserto de ruínas e pelos acampamentos da Alemanha derrotada, pelos campos de refugiados da Europa e da Ásia, pelas Repúblicas Populares comunistas, pela América Latina feudal e por todos os países e recantos da Terra onde Deus chora.
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Deus me confiou uma tarefa difícil
Deus me confiou uma tarefa difícil e, para isso, teve em conta as minhas franquezas. Muitas vezes me pôs diante de dificuldades insuperáveis para depois ele mesmo solucioná-las. Concedeu a Satanás grande liberdade, mas jamais lhe permitiu destruir nossa Obra. Às vezes, exigiu de mim sacrifícios que me pareciam sem sentido, mas justamente aí me inundou com sua benção. Despertou uma confiança ilimitada no meu coração, sem nunca decepcionar. E quando eu não via saída alguma, provava-me que era ele mesmo quem condizia nossa Obra.
Como poderia ser diferente? A garantia para a benção de Deus é Jesus, que disse: "Todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25,40*). Estas palavras devem significar para nos mais que toda sabedoria do mundo. Ela deve nos fazer procurar, incansavelmente, possibilidades de como amar, apesar de nossas fraquezas, o Senhor nos pobres, atrás dos quais ele se esconde. Pois o amor cobre muitos pecados. Se o possuirmos, Deus nos acolherá, ainda que tenhamos conduzido uma vida pecadora.
*) As citações bíblicas foram extraídas, via de regra, da tradução Ecumênica da Bíblia
(2. ed., São Paulo, Loyola, 1995). [N.d.E.]
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O Nome WerenfriedEm 1934, com outros treze postulantes, tomei hábito em Tongerlo, Bélgica. Ajoelhamo-nos humildemente no chão da sala do capítulo e invocamos a "misericórdia de Deus e do abade, e o acolhimento na comunidade desta abadia". Recebemos a tonsura. Junto com o hábito branco de são Norberto, o abade nos revestiu do "novo homem", "criado segundo a imagem de Deus na justiça e na verdadeira santidade". Em seguida nos foram dados nomes novos, como sinal de que deveríamos dar início a uma vida toda nova. Nomes de Santos, que deveriam nos acompanhar com seus exemplos e sua intercessão no caminho estreito para os céus. Recebi o nome de "Werenfried".
A aura de romantismo que envolveu nossas vidas não nos iludiu por muito tempo. Deus mesmo, algumas vezes sensivelmente perto e na maioria delas invisivelmente longe, freqüentemente incompreensível, tomou a seu encargo a tarefa da nossa formação. Assim, dotes, erudição e talentos humanos tiveram pouca importância. Não foi por acaso que eu, o estudante de saúde frágil, considerado inapto para o serviço militar e para a ordem dos capuchinhos, recebi o nome guerreiro de Werenfried, apesar de não ter nenhuma propensão a ser um lutador pela paz, como o nome sugeria.
Deus queria que eu me chamasse Werenfried. Mas devo admitir que nem sempre honrei o bonito nome que recebi como noviço, e que freqüentemente falhei no meu programa de vida; que, depois de mais de cinqüenta anos de vida religiosa, ainda não estou à altura da minha missão; e que, sem a ajuda de vocês, não sou capaz de levar a cabo a incumbência que Deus me confiou.
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Um Servo Inútil Muitos me atribuem virtudes que não possuo. Na realidade, sou apenas um servo inútil que diariamente se surpreende com o bem que Deus faz através dele.
Quem bem me conhece sabe do meu lado obscuro e das coisas que eu lamento... Mas tudo foi em vista da vocação que eu, sem merecer, recebi de Deus, o que me faz ser-lhe mais grato ainda, pois, decorridos tantos anos, continuo sendo um pobre pecador.
Tendo isso em conta, compreende-se que minha crítica a pessoas e opiniões que, segundo minha convicção, representam um perigo para o Reino de Deus, não decorre de presunção, mas de um anseio muitas vezes impotente de cumprir a vontade de Deus e de ser um fiel filho da Igreja.
O conflito entre a doutrina e a vida é tão antigo quanto o pecado original. São Paulo assim se exprimiu: "Visto que não faço o bem que quero e faço o mal que não quero" (Rm 7,19). A pessoa que faz o possível e mesmo assim não consegue fazer o que considera moralmente bom, não se torna desonesta por causa disso. Muito pelo contrário! Quem confessa que as exigências de Deus permanecem válidas a despeito dos próprios fracassos é honesto. Desonesta é a pessoa – e isso é um sinal dos nossos tempos – que manipula a verdade segundo o seu próprio modo de viver, que estabelece como norma o próprio modo de agir, que nega a validade das leis morais porque ele mesmo não as respeita.
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Procurai antes de tudo o Reino de DeusVocês sabem que sou sacerdote e que meu trabalho para a Ajuda à Igreja que Sofre* é de cunho sacerdotal. Sabem que, em primeiro lugar, não queremos salvar o corpo, mas sim a alma; que não somos encarregados, antes de tudo, de sanear a economia, mas, sobretudo, de sanear a vida de Cristo nos corações das pessoas; que não fomos chamados a desencadear revoluções, mas sim a ensinar a todos os povos o que o Senhor nos confiou: que devemos antes de tudo procurar o Reino de Deus e que tudo o mais será dado por acréscimo (cf Mt 6,33; Lc 12,31).
Este "acréscimo" é, na verdade, muito importante, mas o mais importante é Cristo, ele mesmo é o Reino de Deus e o seu inalienável domínio. Somente quem partilha a fé e a graça da vida de Cristo é cidadão deste Reino e não apenas participa da complacência de Deus com seu Filho encarnado, como também, do poder que a ele foi dado na Terra.
*) A obra social fundada por padre Werenfried, inicialmente para ajudar a Igreja nos países do antigo bloco comunista e, mais tarde, em todo o mundo. [N.d.T.]
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Senhor, estou à tua porta e batoSenhor, estou à tua porta e bato. A todas as janelas de tua casa chamo e peço...
Tu me deixaste embaraçado com tua palavra: "todas as vezes que o fizestes a um destes pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que fizestes" (MT 25,40). Tomei-te ao pé da letra: Se alguém me pedia em teu nome, não me atrevia mandá-lo embora sem tê-lo ajudado. Eu sempre imaginava que tu mesmo estivesses ali, na minha frente, e te queixasses do teu sofrimento. E disse "sim" todas as vezes que tu vinhas e pedias para ti mesmo. Pois toda nossa ajuda serve a ti, que padeces em teus irmãos sofredores.
Tu não decepcionastes minha confiança! Continuamente tocastes os corações, de tal maneira que minhas mãos foram preenchidas de bens e puderam partilhá-los.
Não existe serviço postal para o céu.
Não existe serviço postal para o céu. Quem quiser escrever uma carta a Deus, tem de endereçá-la a uma pessoa, em quem Deus habita.
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Mais que um gesto humanitárioDurante minha vida inteira lutei em favor do amor num modo dilacerado, onde dois terços da humanidade vivem na mais profunda miséria. Em todos os tons de voz repeti a mensagem de João: "Se alguém possui os bens deste mundo, e vê seu irmão passar necessidade e se fecha a toda compaixão, como permaneceria nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). Incomodei a consciência tranqüila dos bons cidadãos do Reino de Deus, que consideram a Igreja uma "cidadela de refúgio", onde podem viver para salvar a própria alma sem se preocupar com o próximo. Desmascarei a falsa piedade deles, que restringe o amor exclusivamente a Deus e negligencia o próximo. Fiz da Ajuda à Igreja que Sofre uma escola do amor, no qual aprendemos juntos a ajudar os pobres e a nos tornarmos nós mesmos melhores, pessoas melhores que demonstram o amor a Deus por meio da assistência ao próximo, em que Deus se esconde.
Isto não significa que encontramos Deus unicamente no próximo. Tampouco, que o mandamento de Cristo não exige uma resposta direta: "Amaras o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu pensamento" (Mt 22,37). Fé, confiança, correspondência as graças divinas, louvor, glorificação de Deus e cumprimento da sua vontade não estão ultrapassados! O amor a Deus, que é a nossa resposta a ele e à sua revelação em Cristo, nunca pode ser desalojado pelo amor ao próximo. Pois assim como é desumano esquecer o próximo e restringir somente a Deus o amor, assim também é imperdoável declarar Deus morto, abolir o amor a ele, e amar somente o ser humano e tratá-lo como um deus. Isso não é amor ao próximo; é idolatria.
O amor ao próximo só pode subsistir no amor a Deus e através deste amor. Ele se fundamenta na palavra: "Em verdade eu vos declaro, todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25,40). O amor obtém força no fato de o Filho de Deus, infinitamente digno de amor na sua sagrada humanidade, identificar-se com os mais pequeninos dos seus irmãos. Estes são tão dignos de amor como ele mesmo é digno; têm direito ao amor que a ele devemos. Quem o considera supérfluo destrói o motivo pelo qual devemos amá-lo. Reduz a caridade, com toda a sua santidade, a um gesto humanitário.
O amor proveniente de Deus e revelado em Cristo, que nos é dado por Deus como um dom, é mais que um gesto humanitário. Sem ele, a mais nobre das pessoas permanece "bronze que ressoa e címbalo que tine". Sem ele, a mais progressista reforma social e a mais radical divisão da riqueza terrena não têm valor. Pois, "mesmo que distribua todos os bens aos famintos (e isto é uma obra muito humanitária!)... se falta o amor, nada lucro com isso" (1Cor 13,3).
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A cruz que eles carregam é a salvação de vocês
Visto que o Reino dos Céus, conforme a Palavra de Jesus, está aberto a pessoas com um só olho ou uma só mão, estou realmente convencido de que até mesmo um Werenfried estropiado pode ser útil aos planos de Deus... Também após aposentadoria e apesar de sua doença, o velho Werenfried continuará sendo um mendigo, e continuará lembrando a vocês os milhões de irmãos de fé que se confiam aos nossos cuidados e que carregam a amarga glória do Crucificado. Na angustia e na solidão, discriminados e privados do pão de cada dia, torturados e submetidos a métodos de destruição psíquica, esquecidos, ignorados ou atacados pelas costas, na fome, miséria e medo, na prisão, opressão e morte, todos eles são invencíveis redentores deste mundo. A cruz que carregam é a salvação de vocês.
Ser solidários com eles é questão de honra, pois no Corpo Místico de Cristo constituímos com eles uma unidade sobrenatural, mais profunda e mais forte que qualquer tipo de vinculo natural.
Quando um membro sofre, todos os membros sofrem com ele. O sofrimento dos mártires redunda em benefícios de todos. Por conseguinte, é uma grande honra sofrer humilhação por causa de Jesus, estar unido ao Senhor que sofre e participar de sua obra redentora. Ai de nós, se nossa solidariedade para com nossos irmãos for afetada pelo nosso materialismo prático, pela nossa crise de fé que quer negar a cruz, ou pela decadência moral que nos impede de fazer sacrifícios sensíveis ou mesmo empenhar a vida pelos irmãos e irmãs, que tem o direito de esperar de nos a solidariedade do amor e da verdade.
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Vida de Cigano
Quero confessar honestamente que a vida de cigano às vezes me é penosa. Já dura várias décadas. E sempre há em algum lugar um motivo de preocupação, uma pessoa pela qual sofro ou um problema que não consigo solucionar. Às vezes, chego a desanimar.
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Obrigado
Deus, agradeço-te pela minha eleição ao sacerdócio, pela tua proteção e providência, pelos amigos e colaboradores que puseste ao meu lado, pelas alegrias que me deste e por todas as dificuldades que não me foram poupadas.
Pude ser sacerdote a serviço da tua Igreja e dos pobres, em quem freqüentemente te encontrei. Cometi muitos erros. Falhei muitas vezes. Apesar disso, tu sempre me cobriste abundantemente com a tua benção. Em mim se verificou que tu escolhes o pequeno para humilhar o grande.
Tu me vês e me conheces como sou na verdade. Diante de ti não quero ser mais que um pobre ser humano, que diariamente deve pedir perdão e sempre se admira da paciência que tens com ele. Por isso, não quero atribuir a mim nenhum bem que aconteceu através de mim; é exclusivamente teu o mérito de tudo pelo que sou injustamente honrado.
Agradeço-te pelos pobres de todos os povos, que me deram a oportunidade de praticar o amor de que preciso para cobrir meus pecados. Agradeço-te pelos sábios conselheiros que sempre aparecem na minha vida no momento oportuno para compensar minhas fraquezas e me ajudar com sua experiência. Agradeço-te pelos amigos e fiéis colaboradores e pelos inúmeros benfeitores, sem os quais eu continuaria a ser um homem solitário, um sonhador estéril e fracassado.
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Um olhar para o futuro
Fundei minha obra depois da guerra, inicialmente a fim de ajudar os alemães banidos de sua pátria*, mais tarde também os refugiados de todo o mundo. Seguiu-se a ajuda à Igreja perseguida. Pudemos ajudar praticamente em todos os países do bloco comunista, e hoje somos, de certa forma, especialistas nesta área.
Sempre chamei a atenção para o fato de que precisávamos nos preparar para o "dia das portas abertas", como o denominei. Para mim era claro que, quando as portas se abrissem, se faria um vácuo monstruoso, uma imensa fome da Palavra de Deus, de padres, sacramentos e amor. Sobretudo então é que se iria necessitar da nossa ajuda. Foi para isso que rezamos e trabalhamos. No entanto, há aproximadamente dez anos, fico muito preocupado ao observar que nós, do Ocidente, nos encontramos em uma tamanha crise religiosa que dificilmente teremos condições de ajudar satisfatoriamente. São demais os padres e as vocações religiosas que perdemos. Hoje, faltam-nos missionários para o Leste.
Nosso cristianismo deveria ser hoje tão ardente e tão brilhante, que pudéssemos convencer os outros de que temos a verdade e a vida. A juventude do Leste Europeu perdeu a fé em Marx. Procura novos valores. Nós, ao contrario, muitas vezes perdemos a fé em Cristo. A Igreja tem aqui uma responsabilidade histórica com o futuro. Uma das nossas tarefas mais importante é, portanto, a formação de novos sacerdotes, como por exemplo, quase onze mil na Polônia e milhares de outros no Leste Europeu, no Terceiro Mundo e no Ocidente.
*) Da Alemanha Oriental, então ocupada pelos soviéticos. [N.d.T.]
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PENSAMENTOS AO LONGO DO ANO
Primeiro AdventoDeus foi embora
No princípio, o Espírito de Deus pairava criador sobre as águas, e tudo era muito bom. Se tirarmos do homem o seu espírito, ele deixará de ser homem. Será uma carcaça ou uma fera, diante da qual nos precavemos ou que até aprisionaremos num manicômio. E se expulsarmos da sociedade o Espírito de Deus, que tudo conduz e tudo anima, o mundo retornará ao caos. A criação será uma fera demente que devora seus próprios filhos. A noite se abaterá sobre a Terra. Chegamos a este ponto.
Deus foi embora. Mas cada pessoa é também a porte pela qual Ele quer voltar. Uma vez ele voltou pela encarnação de Jesus Cristo. Mas hoje Ele procura um acesso ao nosso tempo em milhões de pessoas. Seu dia está próximo. Deus virá ao mundo quando lhe oferecermos morada em nosso coração. Quando o aceitarmos na sua lei do amor. Quando cumprirmos a missão de Maria: conceber Jesus e carregá-lo em nós. De forma que Ele se torne o coração de nossa vida. Então Ele amará o pai celestial com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças. Então seu amor, sua bondade, sua compaixão para com as pessoas irradiarão, através de nós, como um raio de luz no mundo. Então Ele sorrirá pelos nossos olhos, ajudará com nossas mãos, reviverá em nosso corpo a sua vida redentora de outrora. Então nós seremos as portas, as dezenas, as centenas de milhares, os milhões de portas, os portões escancarados através dos quais ele, o Príncipe da Paz, o Deus-Conosco, ingressará em seu mundo, em seu Reino.
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Segundo Advento"Glória a Deus no mais alto dos céus
e paz na terra aos homens por ele amados"
Haverá glória a Deus quando todos os seus filhos o amarem como Pai, e a paz na Terra só será possível quando nos amarmos uns aos outros. Os pecados de Adão e Caim provocaram a ruptura com Deus e semearam inimizade entre os homens. A missão de Jesus foi restabelecer o amor a Deus e a unidade entre os homens. Ele o fez de maneira tão eminente que Deus, por sua causa, se reconciliou conosco e nos fez seus filhos. Esta nobreza nos confere a elevada exigência de "imitar" Jesus de modo tão fiel, que nos assemelhamos em tudo a Ele, o único que é Santo e o único no qual o Pai tem sua complacência. Não alcançamos isso com nossas próprias forças. Por esse motivo, Ele mesmo vem a nós na Sagrada Eucaristia e quer sempre renascer em nós.
E ainda que a ânsia pela paz na Terra aumente sempre mais, não poderemos produzir paz. Ela somente pode avançar um passo à custa de heroísmo. Nossa influência não é muito grande. Mas podemos cuidar para que ao menos duas pessoas sigam o chamado de Deus, que em duas pessoas a imagem de Cristo seja visível, que duas pessoas frágeis tentem mostrar boa vontade: você e eu.
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Terceiro AdventoA estrela de Belém
Quando vocês olharem para o céu noturno nas semanas que antecedem o Natal, pensem na estrela que, por ordem de Deus, apareceu no firmamento no momento oportuno a fim de indicar aos três Reis Magos o caminho para o Menino Jesus, e pensem no anjo que se apressou para Belém a fim de anunciar aos pastores o nascimento do Salvador. Deus foi generoso em milagres quando se tratou de cumprir seu plano de salvação. Por isso, não depende de Deus não haver paz na terra e nos nossos corações. Depende de todos os que não têm boa vontade. Depende de mim e de vocês, sempre que, cegos para ver a estrela e surdos para ouvir o cântico dos anjos, nos desviarmos de modo egoísta do caminho da manjedoura.
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Quarto AdventoA tragédia da história de Natal
Logo será Natal. O resplendor da árvore de Natal e as antigas canções que ressoam no presépio e no rádio lembrarão a vocês a inesquecível história de Maria e José que, por causa do capricho de um imperador, tiveram de viajar durante o inverno através de uma região montanhosa para Belém, onde não havia mais lugar para eles na hospedaria. Assim começou a história da nossa salvação.
Nossa salvação custou caro, não só no Gólgota, mas também em Belém. O cântico dos anjos, a bondade dos pastores e a fé dos Reis Magos nunca poderiam permitir-nos esquecer o aspecto trágico que nos foi transmitido na narração do Natal. A tragédia das portas e dos corações fechados. O escândalo da insensível falta de hospitalidade e da estrebaria onde o Senhor nasceu. O ódio de Herodes que viu na criança indefesa um perigo para o seu domínio. O medo de Maria e José que, de repente, souberam disso e tiveram de fugir correndo no meio da noite, de esconderijo em esconderijo, até cruzar a fronteira, enquanto atrás deles o grito da morte das crianças inocentes e o choro desesperado das mães subiam aos céus.
Podemos imaginar o restante: a chegada ao Egito, o paciente começo num país estranho, as dificuldades com a língua, o interrogatório dos policiais, a desconfiança, o longo caminho de autoridade em autoridade, de repartição em repartição, as formalidades para receber o visto de permanência e de trabalho...Quem gostaria de empregar um trabalhador estrangeiro que cruzou ilegalmente, com mulher e filho, a fronteira?
Jesus, Maria e José foram os primeiros refugiados da Era Cristã. Inúmeras pessoas partilhariam mais tarde o mesmo destino. Desde a noite em que o anjo despertou José e o mandou fugir para o Egito com o menino e sua mãe, o mundo está repleto de banidos, perseguidos e refugiado, nos quais Cristo suplica amor e apoio. E como naquele tempo os pastores trouxeram para o menino Jesus queijo ou leite ou uma pele de carneiro para aquecê-lo, e como aqui e ali, no caminho de Egito, havia pessoas boas que ajudaram a Sagrada Família, assim cabe-nos a tarefa de apoiar o Cristo perseguido de hoje em toda parte onde ele sofre necessidade no mais pequenino de seus irmãos.
Natal é mais do que uma festa da família com árvore de Natal, luz de velas, rabanada e peru assado. É a vinda de Cristo a um mundo frio, escuro e irredento. Sem dúvida, no Natal podemos comemorar com alegria dos redimidos a encarnação de Deus – inclusive com uma ceia. Mas não nos esqueçamos do essencial: Cristo quer novamente se encarnar, na sua santa Igreja e em cada um de nós, para que deixemos brilhar seu vulto, sua bondade, sua misericórdia, seu amor ao próximo e sua solicitude na escuridão do nosso tempo.
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Noite de Natal“Amanhã será varrida da terra a iniqüidade” A festa de Natal, para a qual a Igreja nos prepara com a liturgia do advento, não é nenhum dia de romantismo sentimental, mas sim a festa régia do Deus todo-poderoso, que contou o tempo e finalmente vem redimir seu povo. Apesar de o messias se apresentar inicialmente na forma de uma criança indefesa, Herodes o considerou suficientemente perigoso para mobilizar contra ele o seu exército. Ele é o Cristo forte a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, o Redentor por quem, com ardente ânsia, os oprimidos esperam. Por isso, na véspera de Natal, a Igreja proclama a mensagem alentadora: "Amanhã será varrida da terra a iniqüidade!".
Existe muita injustiça na Terra. Injustiça que cometemos e injustiça que sofremos. Injustiça como punição pela própria incompetência e injustiça cometida sem motivo. Injustiça desencadeadora pelos pecados dos nossos pais e injustiça causada pelo ódio à Igreja perseguida. Toda esta injustiça será varrida do mundo por Cristo.
Isto não significa que nós possamos esperar – como os judeus – um Messias político, ou ainda que devamos imaginar a salvação como uma campanha de punição contra exploradores e ditadores. Tampouco devemos esperar o senhor alguma reforma social que transforme a terra em paraíso, Pois Cristo não é nenhum político, nenhum general e nenhum líder sindical. Ele é o filho de Deus, que se fez homem para trazer às pessoas a vida divina e que, conseqüentemente, nos chama a sermos perfeitos como perfeito é o Pai celeste. Somente à medida que correspondemos a esta vocação, a injustiça desaparecerá da Terra.
Somos pessoalmente responsáveis pela porção do Reino de Deus que nós mesmos representamos. Somente quando Cristo for o único fio condutor do nosso agir, quando fizermos o que ele fez e recusarmos o que ele rejeitou, quando o seu amor por Deus e pelas pessoas irromper irresistivelmente para fora através de nós, quando o Pai reconhecer em nós seu Filho, quando pastores e reis, poderosos e oprimidos se ajoelharem atônitos de alegria por descobrirem em nós o Redentor, só então Cristo nascerá nos dias de hoje e em nós, e poderá haver paz na Terra.
Mas se não houver lugar para Cristo no albergue do nosso coração, a injustiça após o Natal continuará tão grande como antes.
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NatalNatal sem o menino Jesus? Então é de novo Natal! Uma Noite Santa sem Maria, que foi acolhida no céu. Sem José, que morreu há quase dois mil anos. Sem os anjos cantando louvores, pois o universo está tomado por foguetes e satélites. Sem boi nem jumento, que não cabem mais no nosso tempo completamente motorizado. Sem pastores no campo, pois somente soldados em manobras e mendigos ainda pernoitam no relento. Portanto, não se trata mais de uma festa natalina tradicional! Somente a pobreza e o frio ainda estão aí... e Herodes, que quer matar a criança. Se é que haverá uma criança...
Será que até o próprio Jesus faltará neste tempo escuro e consumista? Mentirão os presépios ao mostrarem o Menino às crianças? Nascerá Cristo realmente nesta miséria?
Isto depende de nós! Nós mesmos somos as portas através das quais Cristo entrará no mundo. Devemos assumir o lugar de Maria. Devemos conceber Jesus e carregá-lo em nosso coração, de forma que ele se torne o coração de nossa vida. Então irradiarão seu amor, sua bondade, sua misericórdia para com as pessoas através de nós como um raio de luz no mundo. Então ele ajudará com as nossas mãos. Então ele consolará no nosso amor. Então irromperá de nós sua vida libertadora, agora e aqui, para a humanidade sem esperança deste tempo.
Mas se nossos olhos forem frios e duros, se nossas mãos permanecerem fechadas, se o amor não habitar em nós, então tiraremos de Cristo a possibilidade de se mostrar. Então impediremos que ao nosso redor seja Natal.
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Depois do NatalSem Deus nada se modificaráA Igreja em nosso tempo clama mais alto do que nunca: Vinde, Senhor, e liberta-nos! Neste clamor ela empresta sua voz a todos os que anseiam por libertação. Quem experimentou a guerra e a ocupação sabe o que significa libertação: o dia da independência recuperada, o dia em que as odiadas fardas desaparecem; mas também, o dia do grande ajuste de contas pelas paixões liberadas, pelas casas queimadas, pelas mulheres violentadas e pelos juízes covardes. Muitas vezes, uma embriaguez que, na pálida luz da manhã seguinte, se revela uma ilusão...
Sem Deus nada se pode modificar mesmo. Porque nenhuma libertação exterior consegue libertar o ser humano de si próprio nem consegue transformá-lo intimamente, mudá-lo e torná-lo melhor. Se o próprio homem se degrada e se engana, só há uma pessoa que lhe pode devolver sua condição original: o Criador, que o fez. Ele transforma o ser humano de dentro para fora e o torna inteiramente renovado.
Há dois mil anos Cristo fez isso. Ele libertou o homem do pecado e da inimizade com Deus. Ele o reconciliou com o Pai celeste e o fez seu filho. Esta libertação, embora não o tenha livrado do terror externo de Herodes, não foi uma ilusão, mas sim uma realidade interior. Transformou todos os seres humanos em filhos do único Pai, em irmãos e irmãs, e restabeleceu assim a paz sobre a Terra. A grande graça da encarnação de Jesus Cristo foi haver novamente um ser humano sobre a Terra de quem o Pai pôde dizer: "Este é o meu filho bem-amado, aquele que me aprouve acolher" (Mt 3,17). Este novo homem, Cristo, foi o primogênito do novo povo de Deus, que serve o Pai na paz e na liberdade, e nisso é feliz.
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Ano NovoUm novo ano, que é nos dado por Deus, é um espaço vazio que nós mesmos temos de preencher. Em primeiro lugar, não é mais importante o que ele nos traz, mas o que nós fazemos dele. É semelhante à moldura de um quadro, que teremos um ano para pintar. Um quadro, possivelmente de cores alegres, claras, mas onde não podem faltar porções escuras, pois um quadro sem sombras não existe.
Na verdade, é um mau hábito omitirmos, por ocasião das felicitações de Ano Novo, tudo o que é desagradável. Um ano repleto exclusivamente de dinheiro, divertimento e prazer é um ano fracassado. Embora eu espere que alegria, paz e felicidades nos sejam abundantemente proporcionadas, eu sei que também as dificuldades não nos serão poupadas. Por isso, desejo a nós força para suportarmos tudo que nos for exigido para moldar nossa vida, de modo a agradar a Deus. E, como Deus nos destinou a sermos semelhantes à imagem de seu Filho, a nossa vida deve ser uma reprodução fiel da vida de Cristo.
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JaneiroUm ano começou...
Um novo ano começou – um ano da Historia mundial e um ano de pequenos fatos que acontecerão a cada um de nós. Uma migalha de tempo entre duas eternidades.
Um ano não é muito. Mas Deus nos dá este ano para que com Ele façamos alguma coisa que lhe dê alegria. Visto dessa forma, porém, um ano é muito. Usufruamo-lo para, no fim, agradar a Deus – então ele será valioso.
Consta na Sagrada Escritura que Cristo veio para trazer fogo à Terra (cf. Lc 12,49). Isso foi há dois mil anos. Mas Ele continua voltando através da centelha dourada do seu amor. Ele a faz penetrar nos nossos corações para que estes se tornem suaves e incandescentes de vida divina. Com esse fogo devemos aquecer e iluminar o ano que Deus nos confia, para todos os que vivem no frio e na escuridão. Porque é alegria do Altíssimo ver arder o fogo de Cristo; portanto, meus primeiros votos são de que você leve outra vez, durante o ano todo, pelo mundo afora, o fogo do amor divino.
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PrimaveraO ciclo das Estações do AnoAno após ano, inverno e primavera, verão e outono se sucedem no ciclo das estações. Vemos como a natureza morre para, pouco depois, renascer mais uma vez*. Já vimos isso tantas vezes, que folhas secas, árvores nuas e campos vazios não mais nos inquietam. Sabemos que, se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só; mas, se morrer, dará fruto em abundância.
Para os romanos, o ano começava em março. Para eles, a primavera recém-chegada era o começo; o inverno vazio, o fim. Segundo a contagem cristã do tempo, comemoramos o Ao Novo quando a natureza está morta. Entretanto, ela não está morta, mas adormecida – como a filhinha de Jairo. Deus a toma pela mão. Menos encantadora, mas igualmente cheia de esperança, é a lembrança da Sexta-Feira da Paixão, quando Cristo derramou o sangue na cruz para ressuscitar na manhã de Páscoa.
*) O Autor alude às estações dos países de clima temperado do Hemisfério Norte [N.d.T.]
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QuaresmaPobre ou Rico para a eternidade?
Por que o seu filho não precisa morrer de fome?
Por que você não perderá o emprego se for à missa aos domingos?
Por que você não vive separado ou distante daqueles que ama?
Eu não sei, e também você não sabe. É um mistério.
Nós não somos melhores que os outros; mesmo assim temos melhor sorte. Nós, a pequena minoria que vive na paz e no conforto, temos um caminho bem diferente para o céu se comparado ao da imensa maioria que sucumbe sob privação e medo, sofrimento e fome. Mas eu creio que esses flagelados serão felizes por toda a eternidade, pois são os “seus pequeninos”, portanto os filhos prediletos de Deus. Depois de um curto período de sofrimento, Deus mesmo lhes enxugará as lágrimas porque se tornaram semelhantes ao Homem das Dores.
Nós, porém, somos pobres para a eternidade, pois só temos de carregar um minúsculo pedaço da cruz de Jesus. Desta forma, Deus nos colocará a prova no amor ao próximo. Se não formos de mãos cheias de bondade e de consolo ao encontro dos nossos irmãos que hoje estão sendo crucificados por nossos pecados, se formos avarentos com o nosso supérfluo, se não entregarmos aos pobres e perseguidos tudo aquilo de que pudermos nos privar, se não formos mais heróicos na nossa solidariedade... então teremos de temer por nossa bem-aventurança eterna!
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Semana SantaUm Messias "sensato"?Cristo começou sua Paixão com clarividência: "Em verdade eu vos digo: um de vós me vai entregar" e, acrescentou: "Melhor fora para este homem não ter nascido" (Mt 26,21.24). Este homem foi o mesmo que se irritou quando Madalena ungiu os pés de Jesus: "Por que não se vendeu esse perfume por trezentos denários para dá-los aos pobres?" (Jo 12,5).
A pergunta de Judas parece muito cristã, quase moderna. No entanto, é a pergunta de um traidor, que não compreende o Senhor nem ama os pobres, ainda que queira parecer caridoso. Pois, em sua crítica ao gesto de amor sem medidas de Maria Madalena, ele se afasta da intenção do Mestre, que outra coisa não é senão sacrificar-se, por amor, até chegar à loucura da cruz.
Um Messias "sensato", um taumaturgo ou um rei, seria aceitável para Judas, mas não alguém, que voluntariamente se deixou crucificar. Por isso ele o traiu. Sua argumentação é típica de um desertor. Pois só uma pessoa assim poderia, com palavras pseudocristãs, desprezar a cruz de Cristo. Dessa forma, Judas se tornou pai de todos os que, por sua pretensa sabedoria, não suportam a loucura da cruz e, em nome de um cristianismo "puro", "moderno", "confiável", tentam negar a cruz.
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Sexta-Feira da PaixãoJesus abandonado
Jesus abandonado, completamente só na cruz, entre o céu e a terra, salvou a todos nós. Somente se o amarmos e a ele estivermos unidos teremos o resgate dos nossos pecados e a chave do Reino dos Céus. A unidade com ele deve ser, pois, para nós mais valiosa que todos tesouros da terra. Ninguém pode estar unido ao Senhor sem participar do seu sofrimento e da sua cruz. Por isso, a Igreja, em nenhum lugar, é mais florescente do que onde, por causa de Cristo, é perseguida ou sofre necessidade. E, em lugar nenhum, ela sofre tanta necessidade quanto onde ela se esquiva do abandono do Crucificado.
Somente se partilharmos sinceramente o sofrimento de nossos irmãos necessitados, nos quais reconhecemos o Senhor, poderemos nos unir a Jesus abandonado. E as conseqüências são incalculáveis. Com ele teremos Deus, em quem não encontramos apenas o Céu, com a Santíssima Trindade, mas também a Terra, com toda a humanidade. Nele teremos tudo, porque tudo o que é seu será também nosso.
Essa opção custa caro. Pois o Senhor crucificado já não percebia mais a presença de Deus. Só lhe restaram a dor sem sentido, o fracasso total e a solidão dos que se sentem abandonados por Deus e pelos homens. Também esse sofrimento, que é o preço da nossa redenção, será nosso se amarmos Jesus abandonado na verdade e a ele estivermos unidos.
É lei fundamental do cristianismo que devemos morrer como a grão de trigo na terra, a fim de frutificar na eternidade. Desta forma, também para nós virá um dia a hora do Calvário. Talvez sob a forma da enfermidade grave ou quando a morte nos levar a pessoa mais querida; talvez na profunda angústia por um filho que se perdeu; na injustiça ou no fracasso; na solidão da velhice, na pobreza ou, até mesmo, no martírio. Não sabemos a hora do nosso Calvário. Só sabemos que a ninguém Deus dá provações acima de suas forças. Só podemos esperar que nossa fé resista à prova de fogo do sofrimento.
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Vigília PascalAleluia
Aleluia! Cristo ressurgiu realmente. Este é o dia que o senhor fez para nós. Alegremo-nos e nele exultemos. Aleluia, aleluia, aleluia!
A aleluia da Páscoa explode depois de uma longa quaresma, como o grito incontido da vitória do Cristo ressuscitado. Mas, a despeito de quase duas mil Festas da Ressurreição e de milhões de aleluias, o mundo não mudou. A vida segue sua rotina costumeira: crime, corrupção, fraude, covardia, traição, assassinato, guerra, ódio e cada vez mais ódio. Ódio entre pessoas, povos e sistemas, que nunca se cansam de destruir.
Será que se abre um abismo entre a aleluia e a realidade?
Será a aleluia da Páscoa um grito que se dissipa no vento?
Não! A igreja militante, à qual nós todos pertencemos, se levanta em meio à realidade das pessoas em luta. A aleluia lhe é inspirada pela fé na cruz e na Ressurreição. É o canto de vitória do Cristo morto e ressuscitado, contra todas as leis da natureza, que nos reconcilia com Deus e nos dá sua própria vida, para que com ele possamos enfrentar todos os temores do nosso tempo.
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Páscoa"Por que procurais o Vivente entre os mortos?"Devemos procurar o Cristo vivo, como as mulheres que, na manha da Páscoa, foram ao seu túmulo. Também a nós os anjos dizem: "Por que procurais o Vivente entre os mortos?" (Lc 24,5). Não, não procurem a Vida entre os mortos, entre os que não possuem amor e estão enterrados no túmulo do próprio egoísmo. O ser humano só pode viver pelo amor. E toda injustiça na Terra, toda miséria, todo medo e todo terror, toda perseguição e opressão, toda guerra e todo crime só existem por falta de amor. Pois, qualquer plano insidioso que os tiranos e ditadores dos nossos tempos possam forjar tem sempre sua causa nos mortos.
Por que procurais o Vivente entre os mortos? Entre aqueles que só vivem para si mesmos, para o seu dinheiro, os seus bens e o seu prazer?
Deixem Cristo ressuscitado governar em vocês, para que sua força transformadora os torne homens novos. Não procurem a vida entre os mortos, entre os egoístas. Sigam as palavras de Jesus: "Um mandamento novo eu vos dou: amai-vos uns aos outros" (Jo 13,34).
Assim se tornarão homens novos, como Pedro, João, as mulheres, os discípulos de Emaús. Eles não tinham mais medo, eles deram seu testemunho, eles possuíam o amor.
Somente quando vocês tiverem o amor, Cristo poderá vir ao seu encontro e dizer: "A paz esteja convosco!" Onde não há amor, a paz também é impossível. Não há outra saída a não ser o amor.
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MaioNo plano divino da Salvação, Maria ocupa um lugar extraordinário. A redenção do gênero humano começa em seu regaço virginal e só se completará, segundo a vontade de Deus, com a sua colaboração e a sua intercessão. As honras com que ela é coberta pela Igreja encontram fundamento nesta sublime eleição de Deus.
Maria é a mãe do Filho de Deus. É a Filha amada do pai. É a esposa do Espírito Santo. Por sua cooperação na obra redentora de Jesus, ela está num plano inatingível, elevada acima dos anjos e dos homens. É digna de todo louvor porque é a cheia de graça, e sua santidade imaculada, perfeita desde sua concepção, conservou-se durante uma vida inteira dedicada ao cumprimento da vontade de Deus, até chegar ao amargo fim, quando se tornou Mãe das Dores. Seu lugar na Igreja é único, onde é o membro mais digno, o exemplo mais seleto, a mãe desvelada. Como poderosa intercessora, ela continua, depois de sua assunção ao céu, estreitissimamente ligada a todos que nela buscam refúgio. A sua glória enobrece todo o gênero humano. Deus, que a amou e nela fez grandes coisas, criou-a para fazer dela um dom para si mesmo e para nós.
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Ascensão de CristoUm evangelho vivoPara nos conduzir ao amor, Deus nos amou primeiro e demonstrou seu amor na vida, no sofrimento e na morte de Cristo. E, embora o Senhor tenha ressuscitado do túmulo para voltar ao Pai, ele quer permanecer na Terra em uma nova forma humana – a nossa – para multiplicar o seu amor, para atrair todos a si e para caminhar por este mundo em milhões de pessoas. Através de nossos olhos ele quer sorrir às pessoas de hoje. Com nossas mãos quer tratar de suas feridas. Com nossos pés, correr atrás de seus filhos perdidos. Com nossa voz, ele quer consolar os aflitos, ensinar os ignorantes e censurar os sacerdotes e doutores da Escritura que enganam o povo. Na nossa vida ele quer novamente demonstrar seu amor infinito por Deus e pela humanidade.
Nossa responsabilidade é grande. A expansão do Reino de Cristo pela Terra depende muito do nosso testemunho. Não conseguimos convencer as pessoas de hoje com um Evangelho impresso em papel, mas somente anunciando a Boa Notícia com atos vivos de amor. Nenhuma ameaça de guerra, nenhuma crise econômica ou catástrofe ambiental pode nos eximir dessa obrigação.
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PentecostesReceber o Espírito do seu amorPedro, João e todos os discípulos tornaram-se, na primeira festa de Pentecostes, homens novos: um com Cristo e em misericórdia entre si. Eles receberam o seu amor. Por isso nada mais temiam. Sabiam que eram fortes. Assim, também nós devemos receber o Espírito do seu amor, por meio de quem reencontramos nossa verdadeira imagem: a imagem de Cristo. È isso que significa cristianismo: deixar que ele se revele em nós e trazer resplandecente, ao longo do tempo, sua imagem. É o que queremos fazer: ressuscitar para uma vida nova em Cristo, plenos do seu amor! Então seremos um e ele viverá em meio a nós. Então Deus poderá reconhecer em nós seu Filho unigênito e chamar-nos pelo nome que lhe deu no Tabor: "... Filho bem-amado, aquele que me aprouve escolher" (Mt 17,5).
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Depois do Pentecostes"Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!" Paulo escreve: "Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!" (1cor 9,16). A palavra Evangelho significa Boa Notícia. O resumo desta notícia é: amor a Deus e ao próximo. É a mensagem que o Senhor anunciou com sua vida e com sua morte. Ai de mim, dizia Paulo, se eu não pregar essa mensagem. Da mesma forma: Ai de nós se não formos uns para os outros Boa Notícia e agradáveis a Deus, com preces e sacrifícios, com ações e renúncias, com amor, bondade e caridade, em palavras e atos, como o bom samaritano, como Verônica ou como Simão Cirineu. Ai de nós, se não anunciarmos o Evangelho.
O Evangelho foi impresso milhões de vezes no papel. Foi traduzido em todas as línguas. Mas as pessoas de hoje, enganadas e desesperadas, não buscam um evangelho de papel. Exigem um evangelho vivo, de carne e sangue. Elas têm fome de Cristo, que é a Boa Notícia viva. Esperam por pessoas em que Cristo novamente se faça visível, em quem possam reconhecer e amar Cristo. Enfim, elas exigem de nós que finalmente devolvamos uma imagem viva a Cristo.
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Corpus ChristiReceber Cristo nos pobresNa Santa Eucaristia, recebemos Cristo na forma de pão e vinho. Nos pobres que encontramos, nós O recebemos em forma e carne e sangue. É o mesmo Cristo.
No Juízo Final, Ele dirá: Tive fome, estava nu e doente, sem teto e na prisão... Ele não nos reconhecerá se não O tivermos reconhecido nos subnutridos e nus, nos doentes, nos refugiados, nos desabrigados, perseguidos e encarcerados.
Eles esperam por nosso amor. Neles é Cristo quem espera.
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JunhoO sofrimento dos mártires redunda em benefícios de todosNossos irmãos perseguidos constituem a elite da Igreja. Ser solidários com eles é uma questão de honra, pois no Corpo Místico de Cristo constituímos com eles uma unidade sobrenatural, mais profunda e mais forte que qualquer tipo de vínculo natural. Quando um membro sofre, os outros sofrem com ele. O sofrimento dos mártires redunda em beneficio de todos... Por conseguinte, é uma grande honra sofrer humilhação por causa de Jesus, estar unido ao Senhor que sofre e participar de sua obra redentora. Depois de Cristo é, sem dúvida, aos cristãos perseguidos que devemos agradecer o fato de a Igreja ser, mesmo nesses tempos obscuros, a Igreja santa que, apesar da traição de tantos de seus filhos, continua a ser a dileta de Deus como esposa de Cristo.
Os primeiros cristãos estavam cheios de veneração por seus irmãos que padeciam perseguições por causa de Cristo. Os mártires foram os primeiros a serem venerados como santos. A Santa Eucaristia era celebrada sobre seus túmulos para expressar o vínculo espiritual com o sacrifício de suas vidas. Lamentavelmente, hoje, pouco se percebe desse vínculo.
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JulhoDeus ama as criançasDeus é amigo dos pequeninos. Por mais que nós possamos nos comover quando descobrimos, nos olhos de uma criança, um vestígio do paraíso perdido, não é nada em comparação com o que o Senhor sente quando vê a pureza do próprio ser refletida nos olhos delas.
Ele se alegra na sua vivacidade e luminosidade. Por isso, não quer que se impeça às crianças, a quem pertence o Reino do Céu, de chegar a Ele. E sua maior expressão de ternura, que nos foi transmitida, é com aquele menino desconhecido que "Ele tomou em seus braços" (cf. Mc 9,36).
Ele amava as crianças de forma tão intensa, que se identificava totalmente com elas: "Quem acolhe em meu nome uma criança como esta, acolhe a mim mesmo" (Mc 9,37). Assim Ele nos prescreve que dispensemos às crianças a mesma veneração, cuidado e amor que devemos a Ele mesmo.
E, prevendo o que corruptores inescrupulosos fariam a seus pequenos protegidos, lançou ao mundo terríveis palavras: "Todo aquele que provoca a queda de um só desses pequenos que crêem, melhor seria para ele que lhe amarrassem ao pescoço uma grande pedra e o lançassem ao mar" (Mc 9,42).
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AgostoCristo se recusa a pertencer ao passadoCristo se recusa a pertencer ao passado. Ele quer ser mais do que uma sombra, saída de uma parábola de dois mil anos atrás. Quer ser nosso contemporâneo. Quer continuar vivendo na sua Igreja. O que antes Ele fez em sua própria figura, Ele quer repetir até o fim dos tempos em todos aqueles que trazem o seu nome e se nutrem com seu santíssimo corpo e sangue. Ele quer romper os limites de sua existência histórica a fim de, por amor a seu Pai, buscar sempre de novo, inclusive nos dias de hoje, seu rebanho perdido.
Por isso, o Redentor pede de vocês e de mim que lhe emprestemos uma figura viva, para que ele possa novamente ir pelo mundo, como o bom samaritano, o pai do filho pródigo, como o amigo dos publicanos e pecadores, como o bom pastor e como o protetor dos oprimidos.
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Setembro”Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra...”"Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequenos" (Mt 11,25).
Os "pequenos" são os mesmos "pobres de espírito" que o Senhor chamou de bem-aventurados. Sua pobreza não é considerada do ponto de vista econômico, mas no sentido de que são "pobres" do espírito deste mundo. Eles se recolheram junto de Deus. Estão livres do mundano e abertos ao Reino de Deus. Para eles se abrem os portões da riqueza da alma. Apesar de sua pequenez, são grandes por dentro. Do mirante de Deus, eles contemplam os acontecimentos da Terra, pois Deus lhes revelou o que escondeu dos soberbos. Eles realmente sabem do que se trata. São as sentinelas silenciosas, com uma visão que abraça o mundo inteiro. Por meio de claras decisões espirituais, não deixam apagar suas luzinhas, ainda que em meio à escuridão progressiva dos nossos tempos. Constituem um rebanho pequeno, facilmente despercebido. Seu empenho silencioso na oração e na penitência é quase nada comparado à atividade ruidosa na Igreja e no mundo. Mas Deus não está no barulho e sim, no silêncio.
Peçamos que Deus dê à sua Igreja mais pequenos e pobres de espírito, mais pessoas de oração e penitencia, mais humildade, mais silêncio.
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Outubro“Felizes os que agem em prol da Paz”O amor a Cristo requer de nós que trabalhemos pela paz. Cada um de nós já buscou com todas as forças restabelecer a paz? Sem duvida, políticos e diplomatas empreenderam viagens, proferiram discursos, forjaram planos, redigiram propostas e promoveram negociações entre partes em litígio. Sem duvida, cientistas, artistas, clérigos e pacifistas reivindicaram que se depusessem as armas. Sem dúvida o homem comum protestou nas ruas e fez manifestações, lamentou as vítimas e, conforme a propaganda a que esteve exposto, culpou um ou outro partido. Mas talvez nós, pequenos ou grandes, tenhamos deixado de confiar a obra de justiça, que é a paz, com o empenho de toda nossa força de persuasão, à única pessoa que realmente esta acima dos partidos.
Talvez se tenha falado demais com os poderosos e muito pouco com o Todo-Poderoso, com o Senhor da Criação, o Condutor da História, o Doador de todas as dádivas e Príncipe da paz, que espera que a ele cheguemos com nossos problemas insolúveis.
Rezamos o suficiente pela paz? Tivemos fé suficiente para pedir àquele a quem tudo é possível? Invocamos com inabalável confiança a Palavra de Cristo: "... tudo o que pedires ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá" (cf Jo 15,16)? Depositamos continuamente o sofrimento de nossos irmãos aos pés de Deus, não como censura a um partido, mas como uma súplica à sua infinita misericórdia? Desfrutamos nossa liberdade de filhos de Deus incomodando-o longa e inconvenientemente, até ele atender nossas preces? Ou já perdemos a força de pedir, de crer e remover montanhas, na crise que, como furtiva doença, castiga nossa Igreja?
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Ação de graças pela colheitaO pão nosso de cada dia nos daí hoje...”Na verdade, pode parecer que hoje esta prece já tenha sido antecipadamente atendida. Mas, infelizmente , isso não ocorre. De cada três pessoas no mundo, duas padecem de fome. Por isso, cada um de nós deveria deixar seu lugar privilegiado e pensar em duas pessoas que não têm pão. Então pode pronunciar sinceramente a prece do Senhor: "O pão nosso de cada dia nos daí hoje" – a nós três: ao que está satisfeito e aos outros dois que passam fome. Não amanhã ou na próxima semana, mas agora, hoje! Pois hoje é o dia da fome. "... e perdoai as nossas ofensas", continua a prece logo em seguida, sem sequer iniciar uma nova sentença. Pois o pedido de pão e de perdão cabem juntos, como cabem juntos os nossos pecados e a fome dos outros.
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Todos os SantosA divina virtude da esperançaCada ano, cada dia, cada hora que passa nos aproxima da morte e, esperamos, também do céu. Por isso, a divina virtude da esperança é indispensável a cada peregrino a caminho da pátria celeste.
Esta esperança – a expectativa absolutamente segura da felicidade eterna – baseia-se não na promessa humana, mas na promessa do Deus todo-poderoso e infinitamente fiel. Ela não pode ser confundida com a esperança em um futuro terreno, que traga um pouco mais de saúde, dinheiro ou bem-estar; é justamente o contrario. Pois de acordo com a Palavra de Cristo, devemos perder nossa vida, se quisermos salvá-la.
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Novembro“Se seus pecados tão numerosos foram perdoados,
é porque ela mostrou muito amor”. (Lc 7,47)
Se algum dia Deus fizer o balanço final da sua vida, que ele possa se lembrar sorrindo de que também o seu amor cobre uma multidão de pecados e que ele pode perdoar-lhe, porque você muito amou. Pois o amor é o maior mandamento, e você, por sua natureza corrompida, por predisposição ou influência dos outros, é fraco e indefeso na tempestade de muitas tentações...
Enquanto você puder dizer, juntamente com Pedro caído, que realmente ama Jesus, enquanto fizer o que está ao seu alcance para ajudá-lo quando ele pedir auxílio para o menor de seus irmãos, pobre, doente, perseguido, você poderá invocar confiante as suas próprias palavras: "Felizes os misericordiosos: eles alcançarão misericórdia" (Mt 5,7). Essa misericórdia que, hoje mais do que nunca, não podemos dispensar e cuja medida nós mesmos determinamos mediante o bem que fazemos ao nosso próximo, possa Deus ter essa misericórdia com você.
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Festa de Cristo ReiCom seu dinheiro você pode consolar,
Com seu sofrimento, redimir.
Cristo proclamou seu reino quando esteve diante de Pilatos como um vencido e aniquilado. Os seus o haviam abandonado. Judas o havia delatado. Pedro o havia renegado. Completamente só, bradou ao céu impassível seu clamor: "Meus Deus, por que me abandonaste?". Morreu fracassado. Mas nisso residiu sua vitória. Ele é rei na derrota.
A vida de Cristo é norma e modelo para a vida de todo cristão. A despeito de nossa fraqueza e medo, somos chamados a imitar a sua vida e a morrer a sua morte e, assim, a participar da sua vitória. Até mesmo a obra que realizamos juntos se submete a esta lei fundamental do cristianismo. Por isso, a Ajuda à Igreja que Sofre é mais auxiliada pelo nosso sofrimento do que pelo dinheiro que lhe oferecemos.
Cada irmão sofredor traz a cruz de Cristo como contribuição para a redenção do mundo. Também você tem sua aflição, sua cruz, suas fraquezas. Não se amargure por isso. Não pretenda entender o que Deus ainda não lhe quer desvelar. Não duvide do seu amor. Acolha com o coração em festa tudo o que Deus lhe faz. Seja esta a sua contribuição para a Ajuda à Igreja que Sofre.
Com seu dinheiro você pode consolar, mas com seu sofrimento, redimir. Deus prepara o seu futuro. Somente o que foi purificado pelo sofrimento ele poderá empregar amanhã. Deus purifica seus instrumentos, limpa sua Igreja.
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